O primeiro emprego

Já havia um tempo que ele procurava o seu primeiro emprego. Sua mãe falava com Deus e o mundo para tentar lhe arrumar uma vaga, fosse onde fosse, fazendo seja lá o que fosse.

Ouviu por alto, de uma amiga, que o esposa dela tinha um trailer de lanches e que estava precisando de alguém para trabalhar.

Quando chegou em casa, falou para o jovem desempregado, que colocou a sua roupa de domingo, e saiu no pingo do meio-dia, caminhando quase uma légua para chegar ao local aonde seria entrevistado.

O patrão não tinha cara muito boa, mas a oportunidade era boa, afinal, era a chance de fazer alguma coisa depois de algum tempo sem nada fazer.

– Sabe fazer um hambúrguer?

– Nunca fiz um na minha vida, mas aprendo rápido.

– Pode trabalhar a noite? As vezes tem festa e temos que ficar a noite toda trabalhando!

– Não tenho problema com isso não, não senhor!

– Na segunda-feira, antes de começar a aula naquele colégio esteja lá.

– Sim senhor.

E partiu o jovem mancebo, convencido de que havia tirado a sorte grande, e arrumado um emprego.

Na segunda-feira, no local e hora marcados, ele já esperava, quando o patrão chegou. Deu bom dia enquanto ele abria o trailer. Enquanto o patrão abria as janelas, explicava como funcionava o movimento e dizia que não se afligisse, pois ninguém costumava pedir nada no primeiro dia. Seria somente a venda de balas e bombons.

Mostrou o que precisava ser limpo e como. Onde estavam os ingredientes, etc. Ao final de vinte minutos o jovem mancebo já estava ambientado e pronto para não vender nada, afinal, como disse o patrão: “ninguém costumava pedir nada no primeiro dia”.

– Preciso sair. Você pode fazer um lanche pela manhã e pela tarde, como cortesia da casa. Não será descontado do seu salário.

O jovem trabalharia e ainda comeria de graça, quanta felicidade.

Lá pelas nove horas, duas moças aproximam-se do trailer. O coração do mancebo se acelera, enquanto ele pensava quase em voz alta: “não peçam nada, não peçam nada”.

Suas súplicas ao divino foram interrompidas por um “bom dia” dito em uníssono, seguido de “o cardápio por favor”.

Jesus amado, Maria e José. “O que vou fazer agora?”, pensou o jovem, que de forma atabalhoada pescou um cardápio debaixo do balcão e entregou a uma das moças, tremendo mais do que vara verde.

Enquanto elas desciam os olhos pelas opções, o rapaz observava a rua, rezando para o patrão chegar e salvá-lo daquela situação, o que não aconteceu.

O primeiro pedido foi simples, um sanduíche com queijo, presunto, ovo, milho, ervilha e alface. Era claro que aquele era seu primeiro dia, e ele nem precisou explicar isso para as clientes.

Liga a chapa, esquenta o pão, frita o ovo, esquenta o presunto, coloca o queijo, a alface, o milho e a ervilha. Fecha o pão, prensa na chapa e entrega.

Os olhos arregalados imaginando “será que está bom? será que vão gostar?”. Elas não dizem nada. Comem enquanto conversam e pedem ketchup e maionese. Mas onde estão estas coisas? Após uns dois minutos procurando, finalmente encontra dentro do freezer e sem cerimônia os desculpas, passa para as moças.

Elas pressionam os recipientes esperando que alguma coisa saia de lá, mas está difícil. Balançam e pressionam até que o ketchup sai, como uma granada que explode nas mãos de um pobre soldado, pintando de vermelho, o primeiro dia de trabalho de um jovem mancebo.

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