Contraditórios

Ele parou no sinal, mas o sinal ainda estava verde. Na rua movimentada, logo algumas pessoas começaram a buzinar atrás. O sinal mudou para o amarelo e as pessoas atrás continuavam a buzinar.

Alguém ainda ensaiou uma manobra para sair de trás, mas o pouco espaço não permitiu. Com a janela aberta devido o calor e o ar-condicionado quebrado, ele provavelmente ouviria alguns xingamentos.

O sinal fechou, e ainda por em tempo as buzinas continuaram, até que cessaram.

Ele olhou pelo retrovisor, no carro logo atrás, um homem conversava com uma moça, aparentemente mais nova, e gesticulava com indignação.

“As pessoas estão sempre com pressa”, ele pensou engatando a marcha, esperando que o sinal ficasse verde, e tão logo ficou, ele saiu devagar, experimentando o veículo acelerar lentamente, mas em um ritmo que não deixou ninguém furioso.

Seguiu seu caminho sem olhar novamente no retrovisor. Mais a frente parou, fechou as janelas, desligou o carro e desceu. Chegara a seu destino, uma represa no meio da cidade. Levou consigo uma toalha, estendeu em um gramado e sentou-se.

O tempo estava quente e não haviam nuvens no céu. À beira da represa, o vento soprava, produzindo um pouco de frescor. Poucos metros a sua frente, uma família de capivaras passou vagarosamente, sem se importar com sua presença.

Foi quando seus pensamentos se voltaram novamente para aquela loucura toda, e pensou não na pressa ou na fúria, mas na contradição que somos. O quanto somos contraditórios em tudo, em como não conseguimos ser coerentes, por mais que nos esforcemos… ou será que simplesmente não conseguimos nos esforçar suficientemente?

“Pedro”, ele se lembrou, “negou a Cristo três vezes”, mesmo garantindo a Ele, que não o faria. Ele não foi coerente quando a sua vida correu risco.

Negamos a todo o instante os nossos “princípios”, quando dizemos tê-los pelo menos. Moldamos esses princípios à nosso bel prazer, para atingir objetivos e algumas vezes justificar nossas falhas.

Fazemos o papel de “vítima das circunstâncias”, e assim vamos nos contradizendo. E embora isso não comece por eles, encontra neles um bom exemplo. Considerem os neo-fariseus, um povo que “fala de Deus e de seus ensinamentos”, crendo serem mais santos que todos os outros, mas não sabem o que significa viver o “amar o próximo como a si mesmo”.

Que todos os dias gritam para os soldados soltarem Barrabás.

O contraditório parece ser nossa natureza. A hipocrisia parece ser a norma. Parece que gostamos de mostrar um esforço para a sociedade, enquanto na privacidade nos entregamos a nossa verdadeira natureza.

Quem somos? O que somos? Será possível sermos melhores? Ou tudo será sempre uma contradição?

Ele então levantou-se, banhou-se na água da represa. Caminhou até o fundo e afogou-se. Levou consigo suas dúvidas e suas próprias contradições.

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