A botija encantada

Já era noite e o candeeiro já estava aceso na velha casa da fazenda. A família toda reunida à mesa fazia a refeição depois de rezar o terço. O prato de ágata da maioria transbordava com cuscuz, queijo e leite.

Do lado de fora o cachorro latiu, e um homem gritou “ô de casa“. Seu Zé Benedito, o chefe da família se levanta, enquanto seus oito filhos seguem como numa procissão, menos um, que prefere terminar o conteúdo do prato do que saber quem chama lá fora.

Ô de fora!” grita o velho Benedito. “É assombração que bate a minha porta a essa hora?

Não sinhô. É só um viajante de passagem, vindo de Acari e indo pra Currais Novos e precisando de pousada“, diz o viajante se ajeitando para apear do cavalo.

“E qual a graça do viajante?” pergunta o velho Benedito, se aproximando do viajante com um candeeiro trazido pelo caçula, pra alumiar a cara do viajante.

“Me chamo Santino, filho de Sebastião de Zé Antão, do Rio da Cobra e estou indo resolver negócios em Currais Novos amanhã logo cedinho. A chuva de mais cedo me atrasou e não vou dar conta de seguir mais a noite nessa noite de lua nova”

“E o moço quer jantar?”

“Carece não, meu bom senhor. Também tô cansado da viagem e só queria um lugar pra dormir, se não for pedir demais”

“Mas eu só posso oferecer de pousada a varanda, mas com a chuva que vai cair, nem sei onde vai dormir”

“Mas e aquele casarão ali? Quem dorme ali?”

“Ali é onde guardamos o algodão. Se não se importa, pode dormir ali, se não for acender palha”

“Pode deixar que não acendo palha e me viro em cima do algodão. Amanhã cedinho, logo antes do café pico a mula e sigo viagem.”

O moço seguiu para o galpão de algodão, acompanhado pelo filho mais velho do Benedito, levando um candeeiro recém acesso. Colocou o cavalo ali por perto, se alimentando num coxo e colocou o candeeiro em um grande prego na madeira.

Deixou ali o moço e despediu-se com um boa noite, correndo para casa, já debaixo de chuva que começa a ficar forte.

Não tardou para o mundo cair. Uma chuva nunca vista antes na região. Tão forte era, que nada se ouvia do lado de fora. Os trovões faziam a casa tremer e alguns raios caíram ali perto.

A velha Josefa, matriarca da família, ria e falava com os filhos “que péssima noite o moço escolheu para sair de casa.”

Mais de uma vez, um dos filhos disse ter visto algo estranho vindo do galpão. Umas luzes, ele dizia. Os outros se enrolavam todos em suas redes, dizendo que aquilo era assombração.

Como acontece nesses dias de chuva intensa, todos dormiram com a tormenta e quando acordam, parece que tudo está diferente, menos o barulho, que agora não se ouve nada.

Os três filhos mais velhos acordaram logo cedo e junto com o velho Benedito foram tirar leite das vacas, mas passaram logo no galpão, mas nem sinal do cavalo.

Entraram e se espantaram. O algodão estava todo revirado e vários buracos foram cavados nas paredes, sendo que um deles se destacava pelo tamanho. Abaixo dele uma moeda de 4.000 réis.

Com a moeda na mão, o velho benedito disse olhando pros seus filhos “assombração não era não, mas tava guiado por uma, pra retirar uma botija“.

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